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Um olhar sobre escolhas e identidade

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Por Bruno Oliveira

Já começo deixando claro: ninguém é obrigado a concordar com a minha visão. O que proponho aqui é lançar luz sobre detalhes que, muitas vezes, passam despercebidos quando decisões são tomadas no calor do momento.

O episódio da assinatura da ordem de serviço, ocorrido no último domingo (12), foi marcado por discursos enérgicos. Mas não é sobre isso que quero me aprofundar.

O ponto que me trouxe reflexão foi a ideia do “ginásio La Bombonera da Mata Norte”.

Antes que perguntem se concordo, já adianto: não.E explico.

Existe uma construção imaginária, repetida ao longo dos anos, que tenta associar Buenos Aires, em Pernambuco, à Buenos Aires da Argentina. Mas historicamente, essa relação não existe. Trata-se apenas de uma coincidência nominal. Não há registros consistentes que sustentem qualquer ligação direta, nem cultural, nem histórica, nem institucional.

Ainda assim, de tempos em tempos, essa narrativa é resgatada. Em muitos casos, reforçada por um pequeno grupo que tenta criar uma espécie de “produto simbólico” (torcedores argentinos), associando a cidade pernambucana ao universo argentino, especialmente no futebol. Uma ideia que ganha visibilidade pontual, aparece em reportagens, chama atenção em copa do mundo e só … mas carece de profundidade.

A pergunta que fica é: qual o sentido prático disso? Ao propor o nome “La Bombonera”, em referência ao estádio do Boca Juniors, surgem questionamentos básicos:

Qual a ligação real entre o clube argentino e o município? Existe algum tipo de parceria, investimento ou intercâmbio? Que benefício concreto isso traz para a população local?

Até aqui, nenhuma dessas respostas parece existir.

Mais do que isso: dentro da própria realidade esportiva do município, não há histórico relevante que sustente essa homenagem. Não há tradição consolidada, não há equipes locais que tenham carregado esse nome de forma significativa, nem um legado que justifique tal escolha.

O que existe, na prática, é uma tentativa de chamar atenção. E isso, por si só, não é um problema, desde que venha acompanhado de planejamento, estratégia e, principalmente, sentido.

Construir identidade exige mais do que ideias criativas. Exige raízes.

Antes de buscar referências externas, é preciso fortalecer aquilo que já nos define. Buenos Aires, em Pernambuco, tem sua própria história, sua própria cultura, seus próprios símbolos. Aqui, o ritmo que pulsa não é o tango — é o forró. E isso não é uma limitação, é uma riqueza.

Não se trata apenas de erguer paredes ou criar uma nova marca, mas de reconhecer quem contribuiu para que a cidade chegasse até aqui. Ali existe um legado, e ele tem nome: Seu Gentil.

Se a proposta é projetar o município para além de suas fronteiras, talvez o caminho mais sólido não seja importar identidades, mas valorizar aquilo que já nos pertence.

Porque, quando a pressa atropela a reflexão, a racionalidade costuma ficar para trás.

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