O sistema de transporte coletivo intermunicipal de passageiros em Pernambuco atravessa uma das piores crises de sua história, com risco de colapso a partir de 2025. O alerta foi reforçado nesta quinta-feira (21) durante debate promovido pela Rádio Jornal, quando representantes do setor voltaram a cobrar intervenção urgente do governo estadual diante da suspensão de linhas e do enfraquecimento da mobilidade, sobretudo no interior.
De acordo com Érica Souto, assessora da presidência do Sindicato das Empresas de Transportes Rodoviários de Passageiros de Pernambuco (Serpe), o setor perdeu 350 veículos e encolheu pela metade nos últimos nove anos, sendo que 2025 já desponta como o ano mais crítico. Atualmente, pelo menos 80 cidades do interior já estão sem linhas regulares ou com horários reduzidos, situação que compromete serviços essenciais, deslocamentos de estudantes, trabalhadores e até mesmo o acesso às gratuidades garantidas por lei.
O impacto social também é grave: 2 mil postos de trabalho já foram perdidos com a redução de linhas. A perspectiva é de novas suspensões, o que pode agravar ainda mais a realidade da população das cidades da Zona da Mata, Agreste e Sertão, que depende do transporte intermunicipal para chegar ao Recife ou para se conectar a municípios vizinhos.
Governo ausente do debate
A situação foi discutida publicamente sem a presença da Empresa Pernambucana de Transporte Intermunicipal (EPTI), responsável pela gestão do sistema, e nem da Secretaria de Mobilidade e Infraestrutura (Semobi), órgão ao qual a EPTI é subordinada. Ambas foram convidadas, mas não compareceram ao debate.
Para o setor, a ausência de diálogo apenas reforça o descumprimento do contrato de concessão, que está parado desde novembro de 2022, apesar de prever um plano estrutural e complementar de mobilidade.
Interior sem subsídios, enquanto o Grande Recife é bancado
Durante a discussão, Érica Souto apontou a desigualdade de tratamento entre o sistema metropolitano e o intermunicipal. Enquanto o Grande Recife recebe subsídios que cobrem os custos operacionais, o transporte que atende ao interior arca sozinho com todas as despesas.
“Questionamos ao governo: existem dois tipos de cidadãos, o da cidade e o do interior? O transporte intermunicipal atende, em sua maioria, pessoas de baixa renda, que pagam suas passagens do próprio bolso. Não podemos aceitar que o custo da operação seja jogado apenas sobre o passageiro”, disse.
A dirigente também destacou que a ausência de uma fonte de custeio para gratuidades, como idosos e pessoas com deficiência, penaliza ainda mais as empresas.
Clandestinos dominam o interior
Outro ponto crítico é a expansão do transporte clandestino, que se multiplicou principalmente após a pandemia. Em 2020, cerca de 20 mil veículos irregulares foram identificados, mas o número atual pode ser muito maior.
“Quem hoje domina o transporte intermunicipal de Pernambuco é o clandestino, que atua sem fiscalização, sem seguro e sem garantias mínimas de segurança. Isso coloca em risco passageiros e enfraquece ainda mais as empresas regulares”, denunciou José Maria Martins, presidente do Sindicato dos Rodoviários do Estado (Sintranstur).
A falta de estrutura da EPTI para fiscalizar o setor agrava o cenário, permitindo que veículos clandestinos invadam até mesmo o Recife, em desacordo com a lei, aumentando o risco de acidentes e a instabilidade para os trabalhadores.
Um pedido de socorro
Com linhas sendo cortadas, cidades isoladas e famílias prejudicadas, o sistema intermunicipal de Pernambuco se mantém em pé à base de esforços pontuais, mas sem perspectiva de retomada. O setor clama por uma solução que passa, inevitavelmente, por subsídios, fiscalização séria e diálogo aberto com o governo.
Sem isso, a promessa de integração do interior ao Recife e às demais regiões de Pernambuco corre o risco de ruir, deixando milhares de pernambucanos sem acesso digno à mobilidade.
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